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Crônica da Boa Esperança e do divã
Reprodução/Oglobo

Crônica da Boa Esperança e do divã

19/04/2026

Boa Esperança do Norte – Há um consultório em Boa Esperança – ou ao menos em alguma cidade que se parece muito com ela. E o cronista, que não é de ferro, resolveu procurar ajuda. Era chegada a hora do divã.

Os problemas do município mais jovem do país foram se acumulando. Um “famoso líder” que some justamente quando o povo mais precisa. Ruas cheias de buracos. E, ao mesmo tempo, uma parcela da população – sempre próxima da administração – insistindo em dizer que está tudo bem, quando claramente não está.

Tudo isso, somado, deixa qualquer um meio “sem parafuso”. E quando chove demais, a culpa é de quem? Dos céus?

Foi nesse estado que o cronista se sentou diante da psicóloga. Psicanalista, ao que tudo indica. Não se sabe ao certo o que isso muda – nem se o leitor se importa. Aliás, quantos dos nossos leitores já foram a um psicólogo? Quantos ainda acham que isso é bobagem?

Talvez poucos entendam, de fato, o que faz um profissional desses. No fundo, o psicólogo está ali para ouvir. Para ajudar a organizar o que a gente sente, aquilo que muitas vezes nem sabemos explicar.

Sem muito rodeio, o cronista começou:

– Então, doutora… não quero falar mal de Boa Esperança. Quando critico, é porque quero ver a cidade melhorar. É para o bem do próprio povo.

– Prossiga – respondeu ela, com a calma de quem já ouviu histórias bem mais complicadas.

E o cronista seguiu, como manda o ritual do divã:

– Ando meio triste. Meu amigo Passarinho, que tanto ajudava nas crônicas, anda sumido… desanimado. Volta, Passarinho!

A psicóloga levantou levemente as sobrancelhas, como se conhecesse o personagem. Talvez fosse leitora da coluna – ou talvez Boa Esperança seja pequena demais para segredos.

– Diga mais… – insistiu.

O cronista hesitou. Pensou em um episódio recente, daqueles que a cidade inteira comenta, mas ninguém assume. A tal crônica que “não foi publicada”, mas que todo mundo conhece.

– Acredita, doutora, que existe uma história que ninguém viu… mas todo mundo sabe?

Ela apenas assentiu com o olhar.

E então veio a cena: dois homens se abraçam e, de forma quase patética, caem na lama durante um temporal. Um detalhe, porém, muda tudo – um deles é autoridade conhecida em nosso cenário de mundo.

Ao fundo, como um eco da cidade, surge a voz popular:
“Perdeu a moral depois de encher a cara assim…”.

Silêncio.

A psicóloga, que até então apenas ouvia, finalmente falou:

– Caro cronista… acho melhor marcarmos outra sessão. Pelo jeito, ainda há muita coisa guardada aí.

E assim terminou o primeiro encontro com o divã – com a certeza de que, em Boa Esperança, há histórias que não cabem em uma única consulta.

Cronista da Boa Esperança

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Renato de Souza

Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande, Renato de Souza é o jornalista responsável pelo Jornal da Boa Esperança (DRT: 50317/SP). Com ampla experiência em jornalismo digital, rádio e assessoria de comunicação, é também escritor e editor, autor de seis livros publicados de forma independente. Renato é pesquisador em Literatura, com interesse especial pelas crônicas de Plínio Marcos, e atua como produtor cultural e professor, dedicando-se à promoção da escrita criativa e do diálogo entre literatura e sociedade.

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