Boa Esperança do Norte – O cronista tem um amigo que mora com a mãe, já idosa. Mas, na história dele, quem mais acorda cedo para “barrer” a calçada, antes das seis da manhã, é o próprio filho. Tem quarenta e poucos anos, e sua imagem voltou aos olhos deste cronista quando um retrato parecido surgiu aqui, no nosso cenário de mundo: Boa Esperança.
Era uma senhora de cabelos compridos presos em coque. Vestia uma blusa de botão e uma saia que descia até as canelas. Nos pés, meião e chinelo de dedo. A cena parecia tão comum que o cronista precisou esfregar os olhos para ter certeza de que era real. Ali estava ela, varrendo a calçada numa quarta-feira qualquer, na sede do município.
Insone, este cronista saiu para caminhar antes do sol nascer. Um brilho tímido já surgia no horizonte. A cena foi rápida:
– Bom dia!
E o cumprimento foi recíproco.
Aquela senhora, que acorda antes do sol para varrer a calçada – ou o chão ainda sem concreto – trouxe à mente outros personagens que podemos chamar de “invisíveis”. Basta observar o cotidiano.
O que dizer da merendeira da escola? Aquela que conhece cada aluno pelo nome, mas raramente é lembrada. “Ô, tia, o que vai ter hoje?”, pergunta o estudante curioso, atraído pelo cheiro da merenda, durante aquela escapada rápida da sala para o banheiro ou o bebedouro.
E a água que desce pelo gargalo no meio da tarde? Ela tenta aliviar a sede do trabalhador rural, castigado pelo esforço físico. É o mesmo homem que chega da lavoura coberto de poeira, mas ainda passa no mercado para fazer o “rancho”. Muitas vezes, é pai e avô ao mesmo tempo – e ainda encontra força para sorrir e conversar com seus guris e gurias.
Também pede passagem nesta crônica outra personagem essencial: a mulher que limpa casas. Chamam-na de doméstica, diarista, como quiserem. Ela organiza o lar dos outros e, ao fim do dia, volta para o seu – cansada, mas firme. Muitas vezes, ainda precisa sustentar sozinha o próprio mundo. É uma espécie de heroína silenciosa.
E há tantos outros.
São pessoas que vivem no silêncio das próprias rotinas – um silêncio quase íntimo –, mas que sustentam a cidade de pé. Estão por toda parte, embora raramente sejam lembradas, citadas ou valorizadas.
Talvez seja hora de olhar com mais atenção. Deixar de lado, por um instante, a vaidade dos discursos, a pressa das redes sociais e o barulho das aparências.
Porque, no fim das contas, Boa Esperança não é feita só de quem aparece.
É feita, principalmente, de quem ninguém vê.
E, sem eles, a cidade simplesmente não existiria.
Cronista da Boa Esperança

