Boa Esperança do Norte – Há um consultório em Boa Esperança – ou ao menos em alguma cidade que se parece muito com ela. E o cronista, que não é de ferro, resolveu procurar ajuda. Era chegada a hora do divã.
Os problemas do município mais jovem do país foram se acumulando. Um “famoso líder” que some justamente quando o povo mais precisa. Ruas cheias de buracos. E, ao mesmo tempo, uma parcela da população – sempre próxima da administração – insistindo em dizer que está tudo bem, quando claramente não está.
Tudo isso, somado, deixa qualquer um meio “sem parafuso”. E quando chove demais, a culpa é de quem? Dos céus?
Foi nesse estado que o cronista se sentou diante da psicóloga. Psicanalista, ao que tudo indica. Não se sabe ao certo o que isso muda – nem se o leitor se importa. Aliás, quantos dos nossos leitores já foram a um psicólogo? Quantos ainda acham que isso é bobagem?
Talvez poucos entendam, de fato, o que faz um profissional desses. No fundo, o psicólogo está ali para ouvir. Para ajudar a organizar o que a gente sente, aquilo que muitas vezes nem sabemos explicar.
Sem muito rodeio, o cronista começou:
– Então, doutora… não quero falar mal de Boa Esperança. Quando critico, é porque quero ver a cidade melhorar. É para o bem do próprio povo.
– Prossiga – respondeu ela, com a calma de quem já ouviu histórias bem mais complicadas.
E o cronista seguiu, como manda o ritual do divã:
– Ando meio triste. Meu amigo Passarinho, que tanto ajudava nas crônicas, anda sumido… desanimado. Volta, Passarinho!
A psicóloga levantou levemente as sobrancelhas, como se conhecesse o personagem. Talvez fosse leitora da coluna – ou talvez Boa Esperança seja pequena demais para segredos.
– Diga mais… – insistiu.
O cronista hesitou. Pensou em um episódio recente, daqueles que a cidade inteira comenta, mas ninguém assume. A tal crônica que “não foi publicada”, mas que todo mundo conhece.
– Acredita, doutora, que existe uma história que ninguém viu… mas todo mundo sabe?
Ela apenas assentiu com o olhar.
E então veio a cena: dois homens se abraçam e, de forma quase patética, caem na lama durante um temporal. Um detalhe, porém, muda tudo – um deles é autoridade conhecida em nosso cenário de mundo.
Ao fundo, como um eco da cidade, surge a voz popular:
“Perdeu a moral depois de encher a cara assim…”.
Silêncio.
A psicóloga, que até então apenas ouvia, finalmente falou:
– Caro cronista… acho melhor marcarmos outra sessão. Pelo jeito, ainda há muita coisa guardada aí.
E assim terminou o primeiro encontro com o divã – com a certeza de que, em Boa Esperança, há histórias que não cabem em uma única consulta.
Cronista da Boa Esperança

