Boa Esperança do Norte – De repente, me vi segurando uma bola de bocha. Lisa, pesada, dessas que exigem prática. Era a minha vez.
Fiz o movimento com cuidado, como fazem os experientes. Lancei.
Foi então, no exato momento em que a bola se aproximava do bolim, que algo curioso aconteceu. Veio à mente, sem aviso, um velho conhecido desta coluna: o leitor contumaz e otimista.
Sim, aquele mesmo. O que comenta. Sempre comenta.
Não sei explicar a conexão. Mas ela veio. E trouxe junto uma espécie de iluminação, quase teatral. Como se, por um instante, baixasse em mim o espírito do cronista e dramaturgo Nelson Rodrigues.
O mestre tinha seus personagens. Suas famosas ideias fixas. E, guardadas as proporções, este cronista também tem as suas.
Enquanto Nelson era gigante, aqui seguimos como aprendizes. Ainda assim, até aprendiz tem personagem. E o meu já é conhecido: o leitor que virou presença constante em nossos rodapés e comentários.
Alguns diriam, na linguagem moderna, que se trata de um “hater”. Ele critica a vida social da cidade. Observa tudo. Aponta falhas nas publicações deste jornal.
Mas há um detalhe curioso, quase poético.
Quando não critica, ele elogia.
E elogia sempre a mesma pessoa.
Nosso leitor contumaz e otimista tem uma certeza, quem sabe absoluta: a gestão do Galelo está sempre certa. Pode faltar ponte, pode sobrar problema, pode a realidade insistir em contrariar.
Nada muda.
Ele segue firme. Defendendo. Sempre defendendo. Com fé, com força e com uma convicção que, de tão intensa, chega a ser admirável.
Há algo de bonito nisso. Uma fidelidade rara. Um otimismo que não se abala, nem diante dos fatos mais teimosos.
Enquanto isso, o cronista caminha sozinho pela Avenida Brasil. Chuta uma pedrinha aqui, outra ali. No ombro, um passarinho imaginário acompanha o trajeto, talvez cúmplice, talvez apenas testemunha.
E, em voz alta, surge o pensamento:
– Meu sonho, na próxima encarnação, é ser como esse nosso leitor.
Porque, convenhamos, deve haver certa paz em viver assim. Um mundo onde tudo faz sentido. Onde não há dúvidas. Onde o certo é sempre certo – principalmente quando já foi decidido antes dos fatos.
E então, como um sussurro vindo de longe, ecoa a “lição rodriguiana”:
“Ninguém vive sem duas ou três ideias fixas.”
A do nosso leitor contumaz e otimista, nós já conhecemos.
E talvez seja isso.
Talvez ele não esteja errado. Talvez apenas viva em um mundo onde sua ideia fixa é mais forte que a realidade.
Ou talvez, e isso já é com o próprio leitor, seja apenas mais um personagem desta Boa Esperança, onde cada um escolhe, à sua maneira, em que acreditar.
Cronista da Boa Esperança

