Boa Esperança do Norte – Passarinho sobrevoou a cidade como quem retorna depois de uma breve ausência. Era quase uma fênix renascida das próprias cinzas. Lá do alto, como quem enxerga a cidade inteira de uma só vez, logo avistou algo diferente. Falou o nosso correspondente alado sobre um retrato pintado no chão de nosso cenário de mundo.
Um dia antes da estreia do Brasil na Copa do Mundo, o Jornal da Boa Esperança noticiou o movimento. Moradores da Rua dos Cambarás se reuniram, uniram forças com apoiadores e comerciantes para colorir a rua em frente de casa e celebrar uma paixão capaz de atravessar gerações.
Quando viu a imagem, até Passarinho incorporou a mensagem desenhada no pavimento. Nosso amigo plumado, que vez ou outra assume a aparência de corvo ou de outras espécies imaginárias, resolveu vestir-se de canarinho. Não por acaso, a Seleção Brasileira carrega esse apelido. O amarelo que identifica a equipe encontra o verde, o azul e o branco numa camisa que, em dias especiais, parece unir a nação inteira – e também o nosso município, ainda jovem na condição de cidade emancipada.
Neste ponto da crônica, a vista aérea dá lugar ao testemunho de quem tem os pés no chão. Logo se vê o senhor emplumado, agora trajado com camiseta amarela, ao lado de tantos rostos conhecidos de Boa Esperança. A mensagem era simples e direta: “Todos juntos por uma só seleção”.
Por algumas horas, os debates do cotidiano cederam lugar aos comentários sobre escalação, tática e placar. Há quem garanta que a estreia do Brasil diante do Marrocos suspendeu, ainda que por noventa minutos, conflitos familiares que pareciam insolúveis.
Muito antes da bola rolar, a euforia já tomava conta das ruas, das casas e dos comércios. Até um cinegrafista local, conhecido por jurar que não bebia, foi visto experimentando um gole de caipirinha. Os petiscos já circulavam pela terceira rodada quando o árbitro autorizou o apito inicial.
Mais uma vez a cidade parou. Não por causa da política. Tampouco pelo luto de alguma despedida. Gente reunida diante da televisão. A bebida gelada no copo. A pipoca dividindo espaço entre a mesa da sala e o micro-ondas na cozinha. Crianças correndo de um lado para outro. Adultos atentos a cada lance.
Enquanto a partida seguia, a Rua dos Cambarás reafirmava o seu significado. Não era apenas uma rua pintada. Era a prova de que algumas paixões ainda conseguem reunir vizinhos, aproximar histórias e transformar uma rua numa extensão da própria família.
Cronista da Boa Esperança

