Boa Esperança do Norte – Chegou aos ouvidos deste cronista uma história da “boca pequena”: o verdadeiro Passarinho seria, na verdade, uma pessoa de carne e osso.
Um amigo pau-d’água, escorado no balcão de um bar na sede municipal e com a mão direita firmemente agarrada a um copo americano, teria declarado com toda convicção:
– Eu vi ontem o Passarinho.
Fez uma pausa dramática, tomou mais um gole e continuou:
– E digo mais: ele usa camisa social preta durante o dia!
Como era de se esperar, os boatos não pararam por aí.
Se os amigos leitores ainda não compreenderam a razão de existir desta coluna – que mistura vida social com literatura – talvez este episódio ajude a explicar.
O próprio Passarinho, disfarçado de cidadão comum dentro de um conhecido atacado da cidade, ouviu a seguinte fala entre duas amigas:
– Amiga, acho que vi o Passarinho ontem dentro da academia. Ele voltou a erguer uns pesos… Aposto que está solteiro novamente…!
A certa altura, este cronista se viu cercado de passarinhos (e passarinhas!) por todos os lados.
É com esse senso de imaginação – que parece habitar com força o nosso povo – que a crônica ganha asas.
E assim ela se espalha, alimentada por boatos que não se limitam apenas à suposta identidade do nosso amigo mensageiro.
Por um momento, porém, os boatos deram lugar aos fatos.
De repente, um coro de vozes invadiu os tímpanos deste humilde cronista:
– E o carro de luxo comprado pela Câmara Municipal, hein?!
Como quem respira fundo antes de mergulhar novamente na crítica social, este cronista se viu em outra cena.
Seria este o momento de tirar uma folga do tom crítico e investir em novos retratos?
Justo quando parecia mais realista do que o rei, veio à nossa memória uma leitura antiga: uma crônica do mestre Fernando Sabino.
Em A última crônica, o escritor mineiro narra uma cena simples de cotidiano.
Uma família negra celebra o aniversário de uma menina em um botequim carioca do século 20.
O narrador observa do balcão uma criança contida, cheia de expectativa, sentada entre o pai e a mãe.
Sobre a mesa há apenas uma pequena fatia de bolo e uma garrafa de Coca-Cola.
Nada mais.
Era o aniversário daquela criança – e, ao mesmo tempo, um retrato delicado da vida social brasileira.
Súbito, não é que vozes populares de nosso cenário de mundo voltaram a invadir a imaginação deste cronista?
As críticas sociais retornaram com força.
Voltaram os buracos nas ruas. Voltou o carro de luxo do Legislativo. E voltou também a fanfarronice de certo subsecretário municipal.
E assim segue a vida na nossa Boa Esperança. Entre passarinhos, boatos e verdades.
Porque, no fim das contas, a crônica existe exatamente para isso: ouvir a cidade e devolver ao povo, em palavras, aquilo que ele mesmo anda dizendo pelas esquinas.
Cronista da Boa Esperança

