Boa Esperança do Norte – Entrei num supermercado conhecido da sede municipal. Deixei Tordilho no estacionamento. Os leitores que nos acompanham nesta coluna sabem: Tordilho, o cavalo amigo, ganhou vida, curiosamente, quando outro personagem também surgiu em nosso cenário de mundo. Quem é que ainda se lembra do “Carro de Luxo da Câmara”? Tomado pelo meu ofício, às vezes imagino uma cena digna de Velozes & Furiosos em plena Boa Esperança: Tordilho e o Carro de Luxo, lado a lado, tirando um racha pela Avenida Brasil.
Mas a imaginação foi interrompida assim que peguei, numa prateleira do “super”, um recipiente de produtor de limpeza (…). Foi nesse instante que percebi um intenso fluxo de pessoas circulando. Resolvi seguir o movimento, a pretexto de esbarrar numa nova história. Parei, de súbito.
Olhei de lado. Uma criança, dependurada no carrinho de compras, segurava três caixas de Bis e dizia para a mãe – tinha cara e jeito de mãe:
– Quero mais! Quero mais!
Seguindo o conselho de um mestre da crônica, dei dois passos para a frente e, em seguida, dois para trás. A criança insistia, agora em tom de autoridade:
– Quero mais… Quero mais…
Olhei para o rosto da mulher, claramente afrontada pelo pequeno comandante do carrinho, e pensei:
– Meu Deus…!
Neste ponto da história, o cronista esfrega os olhos. O som ambiente volta à tona, embalado por uma moda sertaneja. Troco de corredor. Ali, duas mulheres conversavam. Se ouvi bem, uma delas comentou:
– Menina, não ficou sabendo?
– Não…
A outra, então, lançou a notícia com a naturalidade de quem presta um serviço de utilidade pública:
– Pois é… Fulana não está mais namorando o fulano.
Para não parecer que eu estava com a orelha aberta demais, mudei de corredor. Cheguei ao setor de bebidas quando me deparei com uma cena que quase me fez abandonar o carrinho.
Não vou dizer quem estava ali empilhando fardos de cerveja. Basta dizer que, de vez em quando, ele se veste de um personagem da mídia local e carrega a fama de maior fofoqueiro da cidade.
Naquele instante, escondido atrás de uma pilha de refrigerantes, apenas pensei:
– Sextou para o amigo que andava sumido, hein…!
Tudo fez sentido. Estava explicado o sumiço do rapaz.
Cronista da Boa Esperança

