Boa Esperança do Norte – Este cronista acordou em um dia seguinte e, em vez da capa preta e do corvo pousado no ombro – travestido de um popular senhor plumado – resolveu encarnar o Quixote. Como se, no fundo, já não o fosse.
Desta vez reapareceu como gaúcho – como se estivesse no Pampa – montado no alto de uma sela, sobre um cavalo devidamente equipado. Ao seu lado, um fiel escudeiro montado em seu modesto burrico.
Passarinho nem liga para o retrato que lhe oferecem. Disfarçado de personagem secundário – ainda que, na prática, muitas vezes seja o verdadeiro protagonista.
Ocorre que este cronista, agora “gaúcho fantasiado”, cavalga em pleno solo mato-grossense, onde o chimarrão não vinga com a mesma força do Sul, cedendo lugar à sua vertente local: o conhecido tereré.
Tal qual um Quixote moderno, acompanhado de um fiel escudeiro, saiu a cavalo. Diante da quantidade de buracos nas ruas da sede municipal – nosso ponto de partida – já saiu em vantagem sobre camionetes e congêneres.
A cavalgada por nosso cenário de mundo incluiu um olhar panorâmico sobre as plantações que cobrem a paisagem ao redor. Um horizonte largo, que enche os olhos – e também de esperança.
A crônica de uma cavalgada – como uma caravana que começa sem data para terminar – teve início logo após a última sessão legislativa ordinária.
Ficou na memória a imagem de um líder legislativo exibindo seu poder passageiro e, ao mesmo tempo, inflamado.
O tema que paralisou a sessão foi a ausência de respostas convincentes que explicassem a aquisição de um carro de luxo pela presidência da Câmara.
A esta altura das lembranças daquela sessão que expôs mais a vaidade de um representante do povo do que um bom exemplo público, o cronista e seu fiel escudeiro já se encontravam pelas bandas da Linha São Roque.
O objetivo era ver de perto o resultado do choque entre uma obra improvisada – inaugurada como se fosse definitiva – e uma temporada de chuvas que a levou embora.
Horas antes, a manchete do jornal até foi cordial:
“A ponte se rompeu com as chuvas…”.
Mas, vendo com os olhos que um dia a terra há de comer, a história pareceu mais expressiva.
O empreendimento chamado de ponte – inaugurado pelo prefeito com ares de “obra definitiva” e direito a divulgação com tomadas aéreas de drone – revelou-se menos resistente do que prometia.
E assim, neste ponto da “cavalgada anunciada”, este humilde cronista-cavaleiro da Boa Esperança, montado em seu alazão, e seu amigo Passarinho em seu burrico – como personagens saídos das páginas de Dom Quixote, de Miguel de Cervantes – deparam-se com um obstáculo.
A passagem pelo Rio Matrinxã não permitiu o nosso avanço – neste trecho da história contada.
Corta.
Cenas de um possível próximo capítulo.
Cronista da Boa Esperança

