Boa Esperança do Norte – Falamos novamente e direto das redondezas da Câmara Municipal, bem onde terminou a nossa última história contada. Primeiro vem um olhar, depois outro… e quando vê, já são vários – curiosos, atentos, inquietos. É assim que renasce o cronista. E, de repente, ele se vê do alto de um tordilho, seu recém adquirido cavalo de campo, quase como um contraste com o carro de luxo comprado pelo poder legislativo.
Antes mesmo de descer do cavalo, já dava pra ver o cenário: ruas cheias de buraco e o povo cobrando respeito das autoridades. O tordilho bufava, cansado de rodar pela cidade e pelos distritos. Nisso, passa uma motocicleta barulhenta – e, se não falhou a vista, sem placa e com um jovem sem capacete.
Lá de cima, aparece ao longe um carro oficial. Vem chegando… passa… e, olha só: quem tá dirigindo é a famosa Musa da Boa Esperança. Toda sorridente, tranquila, cantando um hit sertanejo desses novos, de “boiadeira”, tocando no mp3 de um carro supostamente oficial. O cronista, claro, não segurou e soltou baixinho: “Uau… essa musa, hein?”
Ainda montado no tordilho, o cronista se estica pra enxergar melhor o que vinha pela frente. Mas aí já não dava pra saber se era cena real ou coisa da cabeça. Como num desfile meio estranho, começaram a reaparecer figuras conhecidas: personagens de outras crônicas da Boa Esperança. Lá vinha o hater – aquele jogador de bocha e puxa-saco do galego famoso – grudado no seu ídolo, famoso por sumir quando o povo mais precisa. Mais adiante, a balconista da farmácia, ainda tentando descobrir quem é o tal do “passarinho”. E assim foram surgindo vários outros, um atrás do outro, como se fossem pensamentos soltos. Talvez fosse cansaço. Ou talvez este cronista já estivesse meio delirando.
E não é que até a professora pedagoga – antiga paixão do tal senhor plumado – apareceu no horizonte? A visão já não parecia muito confiável, mas, mesmo assim, as coisas iam surgindo. Foi aí que esta figura que vos fala resolveu descer do tordilho e “estacionar” o bicho ao lado do carro de luxo mais falado da cidade. Bateu as botas no chão pra tirar o barro e respirou fundo depois de uma cavalgada que parecia não ter fim. O tempo fechava. E logo veio à cabeça aquela chuva que levou a ponte malfeita lá no rio Matrinxã.
Quando já estava se despedindo do amigo tordilho, sentiu um toque no ombro. Leve. Estranho. Como se fosse… um passarinho. Ou melhor: um passarinho com jeito – e até gravata social – de corvo. E era ele mesmo. De volta depois de um bom tempo sumido, falante como sempre… e, quem sabe, cheio de novidade pra contar.
Mas isso aí, por estratégia, fica pra próxima crônica.
Cronista da Boa Esperança

