Boa Esperança do Norte – O cenário era uma escola. Os alunos, como normalmente acontece, estavam inquietos. Era troca de professor.
Estávamos no Ensino Fundamental, na época chamado de 1º Grau.
O cronista, que nem sonhava em ser cronista, só observava a “converseira”. O fundão, para consagrar sua fama histórica, era a representação cristã do inferno na Terra.
De repente, surgiu a professora de Artes.
Jairinho, repetente e maior animador da turma, tratou de chamar a atenção. Tinha até música “oficial” para receber sua declarada paixão:
“Professorinha, sorinha, meu amorrr…”
Se eu disser que Jairinho, aos 12 anos, era apaixonado pela professora… vocês acreditam?
Mas voltemos àquele dia.
Na troca de professores, o fundão resolveu participar da história.
Alguém soltou alguma coisa lá de trás.
“Só pode ser coisa do fundão”, pensou todo mundo – incluindo o próprio fundão.
Nunca descobrimos quem foi. Ou talvez soubéssemos e, depois de tantos anos, o pacto de silêncio continue valendo.
Todo mundo riu. Estava difícil sobreviver ao pum que algum desconhecido havia soltado.
O cheiro passou.
O riso, não.
Sobreviveu por mais de três décadas.
Corta.
Boa Esperança, 2026.
De repente, a cidade mais jovem do Brasil vira palco. E a cena é tomada novamente por um odor.
Só que, desta vez, ninguém está rindo.
De tanto incomodar os moradores, o mau cheiro chegou à Câmara de Vereadores.
E ninguém vai dizer que foi um pum que alguém soltou e saiu de fininho.
O problema, segundo as reclamações, vem de uma área onde há cama de frango – material orgânico formado por fezes de aves, restos de ração e material vegetal usado como leito nas granjas.
O povo já sabe – ou prefere dizer que desconfia – de onde.
A coisa incomodou tanto que virou assunto do Legislativo.
Virou projeto.
Virou discussão.
E os vereadores praticamente decretaram:
“Não aguentamos mais esse cheiro ruim. Que o senhor prefeito tome as devidas providências!”
Na escola, nunca descobrimos oficialmente o responsável.
Em Boa Esperança, a história é outra.
Porque há coisas que passam. Há coisas que o tempo transforma em piada.
E há coisas que, quando não cheiram bem por tempo demais, deixam de ser brincadeira.
Cronista da Boa Esperança

