Boa Esperança do Norte (MT), 14/06/2026,
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Crônica da Rua dos Cambarás e da sua vizinhança
Imagem: Reprodução/JBE

Crônica da Rua dos Cambarás e da sua vizinhança

14/06/2026

Boa Esperança do Norte – Passarinho sobrevoou a cidade como quem retorna depois de uma breve ausência. Era quase uma fênix renascida das próprias cinzas. Lá do alto, como quem enxerga a cidade inteira de uma só vez, logo avistou algo diferente. Falou o nosso correspondente alado sobre um retrato pintado no chão de nosso cenário de mundo.

Um dia antes da estreia do Brasil na Copa do Mundo, o Jornal da Boa Esperança noticiou o movimento. Moradores da Rua dos Cambarás se reuniram, uniram forças com apoiadores e comerciantes para colorir a rua em frente de casa e celebrar uma paixão capaz de atravessar gerações.

Quando viu a imagem, até Passarinho incorporou a mensagem desenhada no pavimento. Nosso amigo plumado, que vez ou outra assume a aparência de corvo ou de outras espécies imaginárias, resolveu vestir-se de canarinho. Não por acaso, a Seleção Brasileira carrega esse apelido. O amarelo que identifica a equipe encontra o verde, o azul e o branco numa camisa que, em dias especiais, parece unir a nação inteira – e também o nosso município, ainda jovem na condição de cidade emancipada.

Neste ponto da crônica, a vista aérea dá lugar ao testemunho de quem tem os pés no chão. Logo se vê o senhor emplumado, agora trajado com camiseta amarela, ao lado de tantos rostos conhecidos de Boa Esperança. A mensagem era simples e direta: “Todos juntos por uma só seleção”.

Por algumas horas, os debates do cotidiano cederam lugar aos comentários sobre escalação, tática e placar. Há quem garanta que a estreia do Brasil diante do Marrocos suspendeu, ainda que por noventa minutos, conflitos familiares que pareciam insolúveis.

Muito antes da bola rolar, a euforia já tomava conta das ruas, das casas e dos comércios. Até um cinegrafista local, conhecido por jurar que não bebia, foi visto experimentando um gole de caipirinha. Os petiscos já circulavam pela terceira rodada quando o árbitro autorizou o apito inicial.

Mais uma vez a cidade parou. Não por causa da política. Tampouco pelo luto de alguma despedida. Gente reunida diante da televisão. A bebida gelada no copo. A pipoca dividindo espaço entre a mesa da sala e o micro-ondas na cozinha. Crianças correndo de um lado para outro. Adultos atentos a cada lance.

Enquanto a partida seguia, a Rua dos Cambarás reafirmava o seu significado. Não era apenas uma rua pintada. Era a prova de que algumas paixões ainda conseguem reunir vizinhos, aproximar histórias e transformar uma rua numa extensão da própria família.

Cronista da Boa Esperança

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Renato de Souza

Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande, Renato de Souza é o jornalista responsável pelo Jornal da Boa Esperança (DRT: 50317/SP). Com ampla experiência em jornalismo digital, rádio e assessoria de comunicação, é também escritor e editor, autor de seis livros publicados de forma independente. Renato é pesquisador em Literatura, com interesse especial pelas crônicas de Plínio Marcos, e atua como produtor cultural e professor, dedicando-se à promoção da escrita criativa e do diálogo entre literatura e sociedade.

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