Boa Esperança do Norte – Na volta de uma cavalgada, o céu do nosso cenário de mundo cobriu-se por uma sombra espessa – daquelas que apagam a luz do dia e anunciam mudança. Este cronista, montado em seu tordilho, se vê paralisado. Era como se o tempo se fechasse não apenas no horizonte, mas também dentro de nós.
Tudo parecia chegar ao fim. Ou, ao menos, assim parecia.
O povo se tornou mais introspectivo, mais pensativo. Como nas viradas de fim de semana, quando corpo e mente se misturam entre descanso e cansaço.
Sem aviso, as coisas deixaram de acontecer como antes. Hoje, o cronista se sente deslocado do próprio ofício. Faltam palavras. Faltam fatos. O cotidiano, antes pulsante e urgente, dissolve-se em uma quietude estranha.
Enquanto isso, um “grande líder”, conhecido por suas ausências, deixa de ser criticado – não porque tenha mudado, mas porque o silêncio passou a dominar tudo. As estradas seguem esburacadas. As pontes continuam esquecidas. Os velhos problemas da cidade permanecem intactos.
Aqui e ali, surge um eco tímido. Como um comentário perdido em alguma rede social:
“Meu pai não pode nem descansar!?”
Mas e se esse filho tivesse viajado com o pai para passear, enquanto, do outro lado, um neto ainda aguarda a reconstrução da ponte para reencontrar a avó – isolada, cercada de incertezas, com o peito pesado de saudade?
O barulho das reclamações foi engolido por uma pausa coletiva. Um intervalo imposto. Um silêncio que não resolve – apenas suspende.
E, nesse silêncio, o que mais assusta não é a falta de voz. É a falta de reação.
O amigo Passarinho – que não ocupa cargo algum – também sumiu. Em sua última aparição, sobrevoava a ponte do Rio Matrinxã, já vencida pela falta de estrutura e planejamento. Ali perto, moradores seguem enfrentando dificuldades de locomoção e tantas outras necessidades.
Onde andarás – ou melhor, por onde voarás –, Senhor Plumado?
Enquanto isso, o município e a região vivem o tempo da colheita. E, como se fosse natural, os embates políticos e sociais – comuns diante das necessidades da sede e dos distritos – entram em compasso de espera.
Um respiro breve. Ou conveniente.
E então, ao fim desta cavalgada, um piscar de olhos dissipa o cansaço. O sol rompe entre nuvens de azul profundo e projeta um reflexo passageiro.
O cronista se vê, mais uma vez, amarrando o tordilho ao lado de um já conhecido veículo de autoridade. Lado a lado, o cavalo do campo e o carro de luxo da cidade – dois símbolos que não se misturam, mas convivem.
E a crônica termina – não por conclusão, mas por falta de fôlego.
Talvez porque, no fundo, ela apenas retome outra que nunca deixou de existir.
Cronista da Boa Esperança

