Boa Esperança do Norte – Não é que nosso amigo correspondente resolveu começar o ano batendo pernas, em vez de bater asas? Pois é. Estamos falando do Passarinho.
Nosso mensageiro perdeu algumas fontes de informação neste início de ano — não se sabe se pelo cansaço ou porque muitos assumiram cargos na administração municipal. Faz parte. Primeiro vêm os limites físicos e intelectuais; depois, as necessidades de sobrevivência. Mas o senso crítico não pode tirar férias, por isso seguimos. E nós vamos adiante com a missão de levar informação e reflexão aos leitores da Boa Esperança.
Enquanto o cronista pensava alto e nisso, o amigo Passarinho estava numa fila imaginária de lotérica. Como não temos uma agência física na sede municipal, ele fazia sua “fezinha” na Mega-Sena pelo aplicativo da Caixa via celular, à sombra de uma árvore na praça. Sonhava com os mais de 100 milhões do prêmio máximo. Sonhar ainda é gratuito.
Depois de confirmar a aposta, ele abriu o coração:
— Fiz a fezinha pra ver se a gente ganha uma grana… mas tem uma coisa que anda pesando mais na consciência.
— O quê? — perguntei.
Ele respirou fundo:
— Essa explosão de casos de violência contra as mulheres na cidade.
O tom da conversa mudou. O amigo continuou:
— Não é só aqui. Você viu o caso do secretário municipal em Goiás que matou os próprios filhos porque a esposa não queria mais ficar com ele?
Fiquei sabendo. E o silêncio que se seguiu disse muito mais do que qualquer comentário.
Passarinho, atento como sempre, começou a listar os casos recentes registrados pela Polícia Militar em Boa Esperança envolvendo violência contra mulheres. Infelizmente, os episódios locais refletem um problema nacional. Não é fato isolado. É estrutura.
— Nossa sociedade se mostra histórica e profundamente machista — não deixei de dizer.
Passarinho me ouviu, mas parecia querer voar para longe. Talvez fugir dessa realidade que entristece e fere a história do município mais novo do Brasil. Só que fugir não resolve. O bom exemplo precisa começar aqui.
No nosso cenário de mundo — pequeno no mapa, grande em responsabilidade — toda pessoa deve ser respeitada, independentemente de gênero ou orientação. Violência não pode ser normalizada. Silêncio não pode ser regra.
Abaixo à violência contra as mulheres em Boa Esperança, em Mato Grosso e no mundo.
Porque esperança que é boa precisa ser prática.
Cronista da Boa Esperança

