Boa Esperança do Norte – O ano começou com energia — e este cronista também. De volta à redação como um funcionário aplicado, retorno cheio de disposição para cumprir a missão deste jornal. Afinal, ser o Cronista da Boa Esperança não é apenas contar com o respaldo da direção. É preciso, também, que o público compreenda nossa verdadeira função: colaborar com a crítica e, sobretudo, com a sensatez. Não estamos aqui para ser “pardais” do poder, nem para “passar pano” a quem governa. Nosso papel é outro.
Enquanto isso, o fiel escudeiro Passarinho nos acompanha por vias tortuosas da sede municipal. Não estranhem a expressão. O senhor plumado, que normalmente sobrevoa Boa Esperança e seus distritos — Água Limpa e Piratininga —, desta vez fez questão de caminhar. Sim, patinhas no chão. No chão batido, como diriam os antigos. Em chão molhado, por vezes.
Se este cronista retorna com a pena carregada de crítica social, saibam que Passarinho voltou ainda mais afiado. Como se nunca tivesse deixado o cenário do nosso mundo narrado. Enquanto eu me perdi em férias prolongadas pelo litoral catarinense, comendo e bebendo do melhor, ele permaneceu por aqui. Há quem diga que andou sofrendo após o fim de um relacionamento com uma advogada da região. Mas isso é assunto para outra crônica.
Quando provocado sobre assuntos pessoais, o amigo alado desconversa. Prefere temas sociais. Eis aí um senhor das plumas, de bico atento à pavimentação — ou à falta dela — na cidade. Porque, sejamos francos, falar de asfalto nos distritos seria nos lançar diretamente ao território da ficção.
Foi então que Passarinho, inquieto, me cutucou com uma asa e disparou: “Meu caro cronista, afinal de contas, pra que a gente serve? Qual é o nosso papel social neste jovem município?” A fala veio com crítica, não com dúvida. Estava cheio de energia — disso eu tinha certeza.
Na sequência, pigarreou — ou pelo menos achei que pigarrearia, como fazem os aposentados atentos à esquina. E seguiu: “E essa pavimentação na cidade? Também conhecida como falta de pavimentação?!”
Naquele instante, entendi o motivo de nossa caminhada. O que víamos não era apenas a ausência de asfalto, mas o retrato de um problema maior: a distância entre promessa política e gestão pública.
Corta para uma próxima cena.
Cronista da Boa Esperança

