Boa Esperança do Norte — Numa cidade onde todo mundo conhece todo mundo — e, quando não conhece, conhece alguém que conhece — a semana foi movimentada. Não por chuva, nem por safra, mas por um enredo que nem novela das oito teria coragem de colocar no ar.
Assim, esta coluna retorna depois de mais de um século de ausência, agora pelas penas do nosso já conhecido Passarinho. Foi ele quem trouxe a história, dessas que chegam cochichadas, cheias de detalhes e com cheiro de confusão ainda fresca. O cronista que vos fala, ainda em férias numa praia paradisíaca do litoral catarinense, limitou-se a ouvir o relato via celular, pouco se importando com os créditos dados ao escriba de plumas — criatura que, diga-se de passagem, não arreda asas da cidade por nada.
Com ares de conto fantástico, a narrativa foi sendo fiada pelo fofoqueiro mais famoso da praça. Nesse momento, ele próprio toma a coluna para si e encarna o contador de causos. Diz ele, ajeitando a gravata imaginária e puxando o colarinho da camiseta social:
“Era uma vez um casamento recente…”
A partir daqui, dispensam-se as aspas. O amigo assume a narração.
Vejam só: falamos de um casamento daqueles que ainda exibem foto nova no porta-retrato. O marido, trabalhador, vivia na estrada e só aparecia em casa nos fins de semana. Tudo dentro da normalidade. Até ali, apenas saudade acumulada e marmita requentada.
Mas a vida, criativa como sempre, resolveu incluir um personagem surpresa: o namorado de fora. Sim, senhoras e senhores. Um vendedor ambulante de lingerie, vindo direto de Sinop, provando que o amor também aceita pagamento parcelado — desde que seja via Pix.
O romance ia bem. Tão bem que, de repente, surgiu uma gravidez. Rápida, eficiente e altamente convincente. O futuro pai, tomado pela emoção, abriu o coração… e a conta bancária. Dez mil reais depois, veio a notícia triste: “perdi o bebê”. Drama, lágrimas e mais quatro mil reais para um suposto “tratamento urgente”.
O problema é que, diferente da gravidez, a desconfiança nasceu forte.
No domingo, enquanto a versão oficial dizia “estou em Sorriso me tratando”, o cidadão resolveu investir em turismo alternativo e seguiu direto ao endereço informado. Afinal, confiança é boa, mas o Google Maps costuma ser melhor.
Ao chegar lá, encontrou quem não estava no roteiro: o marido. O verdadeiro. O legítimo. Aquele que só queria descansar no fim de semana.
O clima esquentou em questão de segundos. Teve grito, confusão, faca, susto e vizinho espiando por trás da cortina. A Polícia Militar entrou em cena antes que a história ganhasse um desfecho mais trágico.
Resultado final:
✔ Um vendedor notificado
✔ Um marido em choque
✔ Uma história que correu a cidade em velocidade 5G
✔ E uma gravidez que só existiu no extrato bancário
Por fim, meus caros leitores, fica a lição: em Boa Esperança do Norte, a fofoca pode até demorar — mas sempre chega inteira.
(Assinado, Passarinho)

